Romeu e Julieta, na hora e no lugar errado

Ele carregava um cartaz com os dizeres “Fora Presidente”, enquanto ela portava uma bandeira vermelha.

Ele foi em direção a ela e exigiu:

–       Abaixe essa bandeira!

Ela o enfrentou com o olhar e respondeu:

–       Se você pode levar esse cartaz, eu também posso carregar a minha bandeira.

Ele aproximou-se dela e tentou descer a bandeira dela, porém ela segurou com mais força e o afrontou. Ele encarou-a de volta e distraiu-se.

–       Você é bonita.

Ela relaxou surpresa e depois confessou.

–       Se fosse em outra situação, eu te beijaria.

–       Se fosse em outra situação, eu retribuiria seu beijo.

Os dois voltaram os olhos para baixo e depois tornaram a olhar-se resignados. Ela então disse desanimada:

–       É uma pena que queiramos a mesma coisa em uma situação como essa.

Ele concordou, virou-se e continuou a andar na direção contrária a dela. Ela esperou que ele estivesse longe e tornou a levantar sua bandeira.

 

No salão de beleza

Clara: Hoje completo 52 anos de casamento.

Manicure: Jura?! que maravilha! Mas contra pra gente, quem tem que ganhar os parabéns? Ele ou a sra? Quem foi o mais difícil de aguentar?

Clara: Hahaha acho que você deve dar os parabéns para ele. Eu sou muito difícil. Ontem mesmo, ele comprou um pijama novo, entrou no quarto todo cheiroso e olhou pra mim. Eu disse: que foi homem? Ele me disse: Você esqueceu do nosso aniversário? De novo! 
Fiquei toda sem graça. Falei meio sem jeito que ele estava uma graça. 

Manicure: Coitado dele! E a sra não estava de pijama novo? 

Clara: Claro que não minha filha, estava com a blusa de um pijama e a calça de outro. Não era nem conjunto!

Manicure: hahaha. E na sua noite de núpicas, a sra lembra do pijama que usou?

Clara: Ha claro…eu fiquei 6 meses preparando meu enxoval para aquela noite. Minha mãe bordou minha camisola de seda, era a coisa mais linda. Agora ele…acho que ele não usou nada!

Manicure: hahaha que beleza! Mas me conta, qual é o segredo pra ficar tanto tempo junto?

Clara: Acho que é a tolerância. Ele me tolera e eu tolero ele. Com todas as nossas imperfeições. O problema é que hoje em dia, ninguém tolera mais nada.

Me apaixonei.

Me apaixonei.

Foi assim, tão rápido como um toque de telefone. Entre o encontro do aparelho com a orelha e o som das palavras, um frio subiu pela barriga e foi em direção à espinha, até se transformar em um quentão, que fez meu rosto ruborizar.

O moço ao telefone queria que eu fizesse a transferência de um livro da loja de São Paulo para a loja de Porto Alegre, nada anormal no dia a dia de uma livraria. Mas para mim, no minuto em que escutei aquela voz, aquele sotaque gaúcho, senti como se fosse o momento mais especial da minha vida.

Desde então, cada vez que um livro não estava no estoque e era preciso pedir uma transferência de outro Estado, já ia direto às informações de Porto Alegre, na esperança de poder aproveitar qualquer oportunidade de falar com o rapaz. Geralmente, quando eu ligava, atendiam outras pessoas, mas uma em cada dez tentativas proporcionavam-me ouvir aquela voz. Ah, e que voz!

Sonhava com a voz todas as noites. Passava horas sem conseguir dormir, apenas pensando em como seria a pessoa a quem aquela voz pertencia. Imaginava um loiro alto, de olhos azuis e calças jeans. Na minha fantasia, ele usava óculos e gostava de recitar trechos dos livros de Borges. Outras vezes o imaginava moreno, sentado na sala de descanso, segurando um chimarrão nas mãos.

Um dia meu gerente estranhou tantos pedidos de transferência para Porto Alegre. Levei uma bronca daquelas, e tive de parar com as ligações para o gaúcho imaginário. Que falta me fazia ouvir aquela voz. Eu estava tão apaixonada, que sentia a dor da saudade de escutar o sotaque do sul.

Depois de uma semana de privação, resolvi mandar um email interno para o dono da voz que me faltava. Inventei que precisava de informações sobre um livro que somente a filial em que ele trabalhava tinha. Ele respondeu simpático. Aproveitei para puxar assunto. E lá se foi um mês de trocas de correspondências eletrônicas.

Agora eu estava fascinada não apenas pela pronúncia dele, mas também pelas palavras típicas que ele usava em seu vocabulário. Foi então que me declarei. Não consegui me segurar. Abri meu coraçãozinho e disse que estava apaixonada pelo sotaque dele. Ele achou graça e começou a me fazer ligações durante o horário de serviço. Ele exagerava a entonação das frases por deboche e dizia “Tche” apenas para me escutar rir. Estreitamos a amizade e logo a brincadeira transformou-se em confissões e histórias de vida compartilhadas.

Um dia o gerente anunciou na loja que haveria a possibilidade de fazer um intercâmbio em lojas de outros Estados. Meu coração acelerou, os olhos arregalaram e sai correndo, dizendo aos berros que eu ia, não tinha para mais ninguém. Meu chefe me olhou com desprezo e apenas disse um ok. Ninguém entendeu o motivo de tanta felicidade.

A emoção inicial, rapidamente, se transformou em ansiedade e pavor. E se ele não gostasse de mim, se me achasse feia? Um medo enorme me paralisou e só lhe contei que ia para Porto Alegre quando faltavam dois dias para o embarque.

Cheguei completamente intimidada na loja de Porto Alegre. Um gerente loiro e de olhos azuis me instruiu. Aproximei-me de um vendedor baixinho, magrelo, de cabelos pretos e perguntei-lhe discretamente quem era o Rafael. Ele sorriu e me respondeu animado – “Sou eu!”- me abraçando logo em seguida.

Enquanto minhas costelas estalavam de encontro aos braços dele, tive de conter minha decepção. Olhava para aquele moço de cabelo grudado na testa, rosto marcado por antigas espinhas, meio desajeitado e meu cérebro não entendia. Nunca havia passado pela minha cabeça que ele poderia ser diferente daquele ideal masculino que eu havia imaginado. Ele falava comigo, mas eu não ouvia. Não podia acreditar. A voz que eu tanto amava era aquela, mas ela não correspondia àquele corpo. Era o fim da fantasia, uma implosão de sonhos inesperada.

Nas duas semanas que estive em terras gaúchas, fui me acostumando com o novo Rafael, o real. Com ele conheci a cidade de Porto Alegre e ficamos ainda mais próximos. Trocamos telefones pessoais e até chegamos a flertar um pouquinho. No último dia, um único beijo e voltei para São Paulo.

Já não penso naquela voz com a mesma frequência. Rafael e eu nos ligamos, damos boas risadas, mas a paixão não se sustentou. Algumas vezes reflito sobre a possibilidade de visitá-lo e quem sabe, se eu o visse de novo, sem a influência da minha fantasia, poderia dar certo.

Mas na maioria das vezes, o telefone toca e eu apenas trabalho:

– Livraria, bom dia.

– Bom dia, você pode ver um livro?

– Nossa, que sotaque é esse? Você é carioca?

Mas, em raras vezes, posso me apaixonar de novo.

Profecia

Essa é a historia de Maria.

Maria nasceu em uma família de pessoas depressivas. O pai suicidou-se quando ela tinha 10 anos, porque “a vida era demais pra ele”, explicava a avó.

A mãe, uma hipocondríaca de carteirinha, passava os dias no hospital. Sempre encontrava uma doença grave que nunca a matava e, como não tinha coragem de acabar com a própria vida, passava seus dias suportando sua miserável existência.

Mas Maria não era desse jeito. De natureza otimista tinha mania de ver o lado bom em todas as situações.

Mantinha-se animada e sonhava com coisas boas.

Sua mãe não compreendia de onde vinha tanta felicidade. Por que Maria era tão feliz e satisfeita com a vida? Ela não percebia que abrir os olhos a cada manhã era um fardo a ser suportado por todos?

Não, não percebia. Para Maria a vida era uma grande explosão de cores e sensações agradáveis. Viver era um prazer.

Para rebater os votos de felicidades e as frases de bom humor que saiam de Maria, a cada situação, sua mãe repetia para a filha: “Cuidado Maria, a felicidade é coisa que dura pouco.”

Porém, Maria não se importava. A mãe podia dizer a mesma ladainha de sempre, mil vezes ao dia, que de nada adiantava, pois ela sabia que a vida era um presente e que era boa de ser vivida.

Por isso estudou com afinco, escolheu uma profissão que gostava e logo começou a trabalhar. E não era que a vida era boa mesmo com Maria?

Tudo funcionava para ela. Havia momentos de sorte, seu trabalho era bom, seu chefe generoso e ela não demorou a ser reconhecida por sua inteligênciae competência.

Todos gostavam de Maria justamente por seu bom humor e otimismo.

Até que um dia, durante o trabalho, foi apresentada ao novo colega. Um homem simpático, sete anos mais velho do que ela.

E foi amor a primeira vista. Os dois não conseguiam desgrudar os olhos um do outro.

Se encontraram após o trabalho, se beijaram e não se separaram mais.

Maria finalmente conheceu o amor. E era o melhor sentimento que já experimentara até então. Como a vida podia lhe surpreender e ser ainda mais maravilhosa?!

Maria não cabia em si de tanta felicidade.

Em um lindo dia de primavera, Maria caminhava pela rua apreciando as lindas flores da nova estação. Tinha 25 anos e havia vivido a melhor vida que alguém poderia ter tido.

Estava tão maravilhada com aquele dia de sol, que não se deu conta da picape prata que descia a rua em alta velocidade. Quando percebeu, já era tarde. A picape invadira a calçada, passara por cima de Maria que morreu instantaneamente.

Não sentiu nenhuma dor. Se ela pudesse dizer algo sobre sua morte, diria que foi uma sorte, morrer assim, tão rápido e de forma indolor.

Mas como não podia dizer mais nada, ficou ali estirada no chão ensanguentado, com a cabeça decepada, a alguns metros do resto do corpo inerte.

Finalmente cumpria a profecia da mãe, sua vida feliz, fora breve.

A atriz

Em minha juventude tive um grande amor.
Ele era pobre e eu rica. Não podíamos ficar juntos. Não podíamos, porque não podíamos e pronto. Um clichê.
Ele morreu em um acidente de carro.
Mas eu não morri de amor.
Me casei.
Esposa dedicada. Mãe amorosa. Outro clichê.
Me ocupava de todos de minha família.
Durante um tempo, fui feliz.
Mas durou pouco. E o tempo me mostrou o que era o vazio.
Sentia constantemente uma solidão profunda. Uma tristeza doída.
Por fora e para todos, sorria.
Achavam que minha vida era perfeita.
Mas eu sabia que não era assim.
Por isso resolvi virar atriz. Porque ser esposa e mãe já não me satisfazia.
Fui fazer uma peça em outra cidade e conheci um homem. Outro ator.
E de um único encontro nasceu uma forte paixão .
Vivemos uma história de amor.
Durante nossos encontros, fazia confidências sobre meu primeiro amor para ele. Meu amor de juventude que havia morrido. Um dia me dei conta de que o amava também.
Uma paixão visceral. Um arrebatamento.
E que isso só podia significar o impossível.
Fugi.
Voltei para meu marido. Voltei para o que conhecia.
Agora como uma infiel, uma mulher livre.
Mas sempre uma atriz.

Marcela

Em uma janela distante, a cortina balança continuamente com o vento. Recostada sobre o parapeito da janela, Marcela com os olhos cansados, mantém o olhar fixo no movimento do pano.

O silêncio é interrompido com a música do despertador que subitamente preenche o ambiente do quarto. Assustada, ela grita. Ainda que já estivesse desperta há duas horas, sente-se como se estivesse estado sonâmbula até então.

Desde aquela maldita mensagem no celular não conseguira mais dormir. Havia procurado se proteger, evitar esse tipo de situação desagradável, porém, mesmo com todo o cuidado que tomara, não soubera escapar do inevitável.

Marcela, até alguns meses atrás, costumava ser uma mulher solitária. Não do tipo que passa as noites enchendo a cara de sorvete, mas sim daquelas que não possuem uma lista ampla de relacionamentos bem sucedidos.

Tivera um ou outro namorado, uns ou outros casos. Se apaixonara por alguns, menos por outros. Mas eram histórias que se repetiam, começavam intensas e terminavam desgastadas, as vezes destruídas. E no fim, tudo se resumia a uma necessidade sexual. Tanto sofrimento para um sexo que com o tempo deixava a desejar e com uma relação que esmorecia conforme ia perdendo a graça.

Um dia se cansou desse esforço que lhe parecia inútil. Por que todo esse trabalho ao invés de ir direto ao ponto? Entrou em um desses sites de relacionamento e após uma noite de conversa jogada fora, marcou um encontro. A princípio foi constrangedor, nunca havia entrado num motel com um completo desconhecido. Mas o que parecia embaraçoso, tornou-se excitante e a partir desse dia ela descobriu o prazer de uma relação sem vínculos.

Não havia motivos para ansiedade. Não havia um questionamento sobre o depois. Não havia a espera por um telefonema. Era apenas prazer, sexo e nada mais. De início sentiu-se culpada, mas logo viciou-se pela facilidade e pela variedade das suas experiências, e pelo menos uma vez por semana combinava um encontro.

Com pouco tempo descobriu que as melhores relações eram com os homens casados. Eles não gostavam de contar histórias, se possível mentiam sobre tudo e como não tinham muito tempo disponível, iam direto ao que interessava. Porém, o que mais apreciava era a falta de intimidade, o homem casado nunca se apegava.

Claro que não era a favor da traição, mas com o tempo percebeu que era uma prática como o roubo de rádio, difícil de aceitar, porém depois da terceira vez que arrombam seu carro você começa a entrar no jogo e compra o rádio mais barato, que é o roubado. Da mesma forma ela passou a usufruir do homem alheio, pois, eventualmente, ele trairia a esposa de qualquer jeito.

Para evitar maiores problemas passou a sair apenas com os casados, os quais eram selecionados por um eficiente aplicativo no site de encontros. E viveu assim, feliz e sem ligações, por três meses.

Tudo ia perfeitamente bem, até que no último domingo, entre o cigarro e a ducha, o desconhecido da vez assumira: não era casado. Sim, ele mentira, mentira porque sabia que as mulheres gostavam mais de homens casados, devido a essa coisa da casualidade e mentir ajudava a conhecer mulheres mais bonitas. Mas afirmou que se havia saído de seu disfarce era por um bom motivo. Havia sido uma transa incrível e ele queria conhecê-la melhor.

Marcela entrara em pânico. Enquanto ele falava em ir jantar, saber mais sobre o que ela fazia, tudo aquilo que ela havia deixado para trás, alarmes de perigo apitaram em sua cabeça. E tudo que ela pode fazer foi colocar a saia o mais rápido que pode, calçar os sapatos e sair ainda vestindo sua blusa. O desconhecido saiu atrás dela, mas ela já havia fechado a porta do elevador.

Após o incidente, ela deletou sua conta do site. Dormiu tranquila, pensando que era um mal entendido. Esperaria algum tempo e depois abriria a conta em outro endereço eletrônico.

Porém, no dia seguinte, certas lembranças de relações passadas habitaram seus pensamentos. Mãos dadas, segredos sussurrados, pés enrolados nas cobertas. Lembrou, com certa nostalgia, momentos que há tempos não vivenciava. Mas logo as recordações de brigas, traições, palavras duras, vieram também. Tentou não pensar mais em homens. Nada que uma boa dose de trabalho não solucionasse.

Passaram-se cinco dias, até que essa manhã, a mensagem apitara no celular: “Você tem certeza que não quer sair? Um jantar e vemos no que dá? Beijos Gustavo”. E então toda a inquietação se iniciou novamente. Aquela proposta, aquela pergunta, como ela poderia responder se tinha certeza? Quem tem certezas de algo? Como dizer com certeza que não se quer uma relação ou mesmo que se quer?

Não sabia a resposta. Tomou uma ducha, arrumou-se para o trabalho, ligou o carro e dirigiu, sem que, contanto, parasse de pensar sobre certezas. O dia passou, repleto de afazeres, mas o pensamento manteve-se.  Um pensamento perturbador que a acompanhou durante todas as horas.

Finalmente em casa, ela abriu uma garrafa de vinho e sentou-se, olhando para o celular. O ponteiro do relógio na parede arrastava-se fazendo barulho a cada segundo passado e ela ali, decidindo entre a liberdade sem finalidade ou o compromisso com incertezas.

Respirou fundo e segurou o celular. Clicou sobre a mensagem que se abriu no monitor do aparelho. Apertou o botão deletar. Aliviada, ligou o computador, deu um gole no vinho e pôs-se a completar um perfil de site de relacionamentos. Escolheu uma foto bem sexy.

O dia seguinte

Olhando-se no espelho do banheiro enquanto se maquiava para a festa de daqui a pouco, pensou que tudo o que queria fazer aquela noite era se divertir. E esquecer. Esquecer aquela dor de amor responsável por sua falta de ar. E dor de cabeça.
Boca com batom vermelho, olhos negros, vestido curto, cabelo comprido.
Saiu para encontrar as amigas.
Chegou na festa.
Festa como aquela conhecia bem, já tinha ido em várias festas da faculdade.
Música alta, muita gente conhecida e também muitos desconhecidos. E o melhor: open bar.
Bebeu, bebeu muito, como se cada copo fosse o ultimo. Como se a bebida fosse menos gosto do que anestésico. Bebeu tanto, que tarde da madrugada caiu. Perdeu o pouco equilíbrio que já tinha e caiu de cara no chão.
Ficou ali por alguns segundos, com a cara no chão, sentindo o piso frio na sua bochecha, o zumbindo no ouvido e mais a sensação de não saber o que fazer.
Um alguém veio ao seu encontro. Puxou-lhe o braço e ajudou-a a levantar. Já de pé, meio de olho fechado e aberto, focalizou seu salvador.
Era um desconhecido. Jovem, bonito, aparentemente ainda não tão bêbado.
Sentaram-se, conversaram um pouco:
– Está tudo bem?
Claro que não estava. Ela tinha caido, seu corpo doia. Queria um abraço, um carinho, um calor.
Beijaram-se.
Beijaram-se o resto da noite.
Ela acordou não sabia onde.
Estava nua em uma cama. Olhou para o lado e seu salvador estava lá. Dormia nu, pacificamente ao seu lado.
Meus Deus, pensou ela. Como vim parar aqui? Quem é esse homem? O que eu fiz?
Transamos? Usei camisinha? Um cheiro forte a despertou dos devaneios. Era cheiro de vômito. Olhou por todo o quarto, e encontrou ali, num canto, uma mancha escura no carpete. Era viscosa.
Nunca tinha se sentido daquela forma. Sua cabeça girava. A falta de ar veio com mais força. A dor do peito parecia que iria paralisar o seu coração.
E com o nojo, veio também uma vergonha imensa de si mesma.
Só queria ir embora. Recolheu as roupas, se vestiu. Nem penteou o cabelo e procurou a saida. Sentiu o calor do sol da manhã no rosto. Que horas eram? Precisava ir para casa. Diria no trabalho que estava doente. Se sentia doente.
O dia passou lento como a ressaca. No meio da tarde, o telefone tocou:
– Alô?
– Oi tudo bem? Você chegou bem em casa? Saiu de manhã e eu nem vi.
– hum…oi. cheguei. Está tudo bem sim…
(como é mesmo o nome dele?)
– Ontem foi demais ,né?! Gostei bastante.
– Como você conseguiu meu telefone?
– Com o seu amigo Jader, ele está na minha classe na faculdade.
– Ha..
(nunca mais iria para faculdade na vida!)
– Realmente ontem foi uma noite épica. Quero sair com você de novo. Posso te convidar pra jantar ou é muita intimidade?
– hum….posso te responder mais tarde? Agora preciso sair.
(meu deus! meu deus! meu deus!)
– Claro, espero você me ligar então. Até mais.
Desligou o telefone com a sensação de que nunca mais iria ver aquele homem. Não queria ver aquele homem. Ela não lembrava do que tinha feito. Já tinha esquecido o nome dele. Se é que alguma dia o soube.
Como pôde ter disposto de seu corpo assim?
Ele podia ter feito qualquer coisa com ela. Não, não iria encontrá-lo novamente. Iriam falar sobre o que? Ficar com alguém quando se está entorpecido pela bebida era mais fácil.
Sentar-se à uma mesa, olhar no olho e conversar….parecia algo impossível.
Ligou para o seu amigo Jader. Queria informações sobre a noite anterior.
– Você não lembra? Nossa, ficou se agarrando com o André (otimo, agora sabia seu nome pelo menos) no meio da pista. Foram para o banheiro, ficaram trancados lá um tempão e depois você falou para mim que iria para casa dele. Não lembra mesmo?
Não lembrava.
Tudo bem. Já passou. Agora era continuar com a vida. Tinha seu trabalho, seus amigos. A vergonha passaria com o tempo.
No dia seguinte, chega mensagem no celular:
“E ai gatinha, vamos sair? beijos André”
Por que ele insiste?
A transa deve ter sido realmente boa pra ele querer tanto repetir.
Será que ela deveria sair novamente?
E se ele fosse um cara realmente bacana? Fazia tanto tempo que não tinha um relacionamento com alguém interessante. O último ainda a fazia sentir aquela dor no peito.
Não, chega de pensar nisso.
Homens são todos iguais. Eles só querem uma coisa: sexo.
Mas e se agora fosse diferente?
Naquela noite, o telefone focou novamente. Era André insistindo para uma segunda saída. Iriam jantar, bater um papo, tomar um sorvete. Queria conhece-la melhor. No primeiro encontro mal conversaram, só se beijaram, agarram, transaram. Foi só corpo.
Agora seria algo mais íntimo.
Tudo bem. Por que não?
Ele realmente tinha gostado dela. Eles iriam se conhecer.
Tentaria superar a vergonha. Afinal, o que tinha acontecido com eles era comum, já tinha acontecido com todas as suas amigas.
Seria uma noite ótima. Colocaria seu vestido preto preferido, seus sapatos de salto alto. Eles eram da mesma altura? Não lembrava. E se ela ficasse mais alta do que ele com o salto?
Não tinha problema, isso não era importante.
Na hora marcada, chegou ao restaurante combinado e sentou-se.
Ele deveria chegar em breve.
Pediu uma água com gás. Essa noite iria ser cautelosa com a bebida.
Esperou.
Ele não foi.